quinta-feira, 14 de junho de 2012

Um refúgio

Toda sua vida sentira necessidade de expressar-se, porém seus pés mantinham-se em terras inapropriadas, fazendo com que sua boca permanecesse calada.

Faltava um chão seguro, faltava o ar leve e o cheiro do pão caseiro.

Mas agora tirara a fita isolante e podia gritar; gritava como jamais pudera.

E com um grito no silêncio, ouvia-se tudo o que tinha a dizer.

sábado, 26 de maio de 2012

Borboleta amarela

Lembro de tempos remotos.
Via-me pequena, contando borboletas que sobrevoavam as flores do quintal.
Eram tantas! Diferentes cores e tamanhos. Mas, na mente, guardava as amarelas.
Recordo de sua luz, brilhante, confundindo-se com o calor vindo do sol.
Inconscientemente, misturava-me com seu esplendor.
Guardo aqui dentro, é a mais nobre das lembranças.

Eu não sei se foi o tempo, mas aquela fulgura sumiu.
Não existem mais tantas borboletas colorindo o céu.
Talvez seja eu.
Cresci e esqueci. Deixei de ser aquela pequena perante o simples.

Mas ainda existe o amarelo em mim, essa cor nunca me deixou.
Provavelmente está no fundo, escondida.


Entretanto, sempre me pego pensando nela.
Vai e volta. Reacende em forma de sorriso.

domingo, 20 de maio de 2012

Decesso

Uma trilha de cacos de vidro no asfalto é o que se enxerga.
O ar gélido mantém o tom de luto. Paisagem cinza.
Bocas de espanto; olhares sedentos pela escuridão.
Através de janelas e portas, pessoas espiam para saber o que se passa. Porém, atitude alguma é tomada.
O sangue continua a escorrer.
Nada pronunciado. Nada é resolvido.
Aquele corpo, atirado em meio ao terreno isolado, chamara a atenção dos curiosos. Formara-se uma ignorante aglomeração de pessoas que, agora, divertiam-se com a desgraça.
Seres imundos. Sentiam paz e plenitude ao ver a carcaça presente, como se a falsa comoção fosse lhes render o céu.
Um ser havia sangrado e a ruela estava infestada de hipócritas.
O chão frio, azul. Cena lenta.
E eu ali, perdida. Não havia motivos para estar presente.
Perguntava-me o por que de ainda estarem olhando para a moça ensanguentada. Até se dar conta de quem se tratava.

Bem, também passara a observar.
Olhava daqui, insípida. Olhava para si mesma.
Via os traços inexpressivos e notava as mentes fervendo ao redor do cadáver duro.
Tentava sussurrar algo, mas era em vão.

Já estava morta.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Nada além de um desejo

Um campo bem verde, cachorros correndo, girassóis em tamanha quantidade e uma velha casa no topo da montanha.

Frio, vento na medida exata e o sol fraco, porém, brilhante.

O cabelo dourado esvoaçando e o tênis surrado formavam o par perfeito para o moletom preferido.

Shorts, pois as pernas não sentiam a temperatura como os braços.

Após um tempo parada, admirando a paisagem, fizera um pedido.

Outro alguém surgira na cena.

Um coração pulsante na encosta do morro e um sorriso tímido que liberava endorfina à quilômetros de distância.

Poucas e leves nuvens, brisa calma e aconchegante e o soar dos pássaros.

Silêncio esteriótipo e uma euforia barulhenta do lado de dentro.

Um espaço cada vez menor entre os personagens. Respiração exagerada e uma sensação de paz espiritual.

Ao fundo, ouvia-se um som inapropriado para o momento. Uma música chamada realidade, que afastava toda a beleza do sonho.

Sim, sonho. Despertara e se deparara com nada mais, nada menos, do que um quarto escuro e rachaduras na parede.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dúvida interna

O calor do fogo. A chama. O rubro.

Reacendeu.

Verdadeiro ou ilusão... antecipação?

Mente atordoada.

Não pensar, mas continuar sentindo.

Agora existe o saber e a certeza da dor que vem. Agora há prevenção, receio, barreiras que o próprio corpo criou. Menos aquela parte que deveria bombear sangue. Continua querendo mais, não aprendeu. Insiste em possuir tatuagens da amarga vivência e destruir tudo aquilo que ainda é puro ou que, talvez, mantêm-se belo mesmo após os danos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Decorrências

A luz do bar, fraca como de costume, juntamente com a temperatura alta, fazia com que a maioria ali presente optasse por permanecer do lado de fora do estabelecimento. Ao som de Led Zeppelin, as pessoas formavam grupos de conversação embaixo do antigo poste de luz amarelada.

A garota prendia o cabelo e se recostava para trás, enquanto o garoto buscava dois copos de cerveja e cumprimentava os conhecidos que ali estavam.

O assunto daquela noite era o mesmo de todas: nenhum em particular. O casal de amigos conversava tanto sobre música, quanto como assuntos mais complexos. Às vezes religião, às vezes política. Mas, por mais que falassem de violetas ou de dimensões do universo, sempre acabavam em altas risadas porque, no fundo, nada daquilo que saía de suas bocas era para ser levado a sério. Ou, pelo menos, ser considerado relevante no momento.

Em meio a palavrões e carinhos, insultos e abraços, os dois formavam uma perfeita sincronia. Haviam formado um vínculo tão forte, que nada mais os separara. A vida os tornara irmãos.

Ao fim de mais uma tarde rendida à alegria que um ser pode transmitir ao outro só pelo fato de se fazer presente, conversavam mais uma vez, porém agora, por telefone. Relembravam tudo o que acontecera, e gargalhavam ao recordar das bobagens ditas. Sendo confidentes e sinceros, sempre permaneciam iguais um perante o outro.

Mas, o futuro chamou, trazendo consigo a mudança.

Era fim de estação e os dias encurtaram. Da porta do bar, já se podia sentir o vento, imponente, fazendo com que todos fossem obrigados a colocar seus casacos de tom neutro e suas jaquetas de couro.

O tempo havia passado e não mais as mesmas pessoas se encontravam ali. Não havia mais sorrisos, não havia mais barulho. Havia apenas um silêncio profundo que ofuscava o sombrio da noite.

Alguém começara a sentir demais. Colocara sentimentos muito fortes, além da amizade, e quebrara o elo de conexão segura que existia entre as duas pessoas.

Passavam não mais a ter assunto. As horas eram demoradas, e o brilho da lua era a única paz do lugar.

Os copos, agora, encontravam-se vazios, a mente recheada, e o coração com um buraco sem fim, aonde o som da pedra jogada, jamais seria ouvido bater ao chão.

O mundo causa isso. Nos leva a amar, nos impõem a sentir. E como resultado, vivemos um sofrimento inesgotável, que elimina quaisquer possibilidades de lutarmos.

Por que não podemos ser fortes, frios, inabaláveis? Por que não podemos apenas sentar e apreciar a companhia de quem nos faz bem, pra sempre, sem causarmos um maldito de um caos emocional?

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Desapego ao apego


Não, não me iluda mais. Não crie expectativas onde não existe.
Sente aqui, me faça rir até a barriga doer, e vá logo embora. Mas, antes de partir, me pague uma bebida.
Deixe-me sempre querendo mais, porém, não ao extremo. Não pretendo me apegar.
Sim, me aqueça sim. De sorrisos e risadas espalhafatosas.
Levante e fique parado ao meu lado. Mas, antes de pensar em permanecer aqui, pergunte-se o quanto aguentaria.
Apenas me abrace ao invés de tentar provar um sentimento ao mundo. Palavras não provam nada.
Bagunce meu cabelo e critique aquela velha camiseta de minha banda favorita. Aperte minhas bochechas e imite minhas gírias próprias. Zombe meu time, faça piadas internas, me irrite.
Deixe-me louca em todos os sentidos. Deixe-me te querer por perto por ser quem você é.
Não aponte meus defeitos ou tente consertá-los, só diga “ei, eu te aceito maluca desse jeito”.
É desse tipo de paixão que eu quero e é desse tipo de amor que eu preciso.
Tome uma xícara de café e mande-me uma mensagem comum ao entardecer.

Assim como você me surpreendeu da forma como apareceu em minha vida, seja a pessoa a qual irei surpreender com um “não saia mais dela”.

sábado, 14 de abril de 2012

Mais um dia no inferno

Você não escuta nada além da chuva caindo.

Seus planos escorrendo entre os dedos e sua vontade de fugir só aumentando a cada suspiro.

Seu coração está endurecendo.

Você não escuta nada além do vento batendo à porta.

Você não sente mais necessidade de responder ou tentar consertar. Você não se encaixa mais ali.

As lágrimas secaram. Sua emoção congelou no passado, pois, o tempo, agora, te transformou num vilão sem compaixão ou arrependimento.

À sua mente, uma estrada. Apenas isso.

Por onde andaria os sorrisos do passado? Onde você errou?

Você só queria a paz de um dia no céu.

Agora você está morto por dentro.

terça-feira, 20 de março de 2012

Enfim, passos ao fim

A pequena garotinha via a mudança resplandecendo seus horizontes. Dava-se por conta de que os tempos mudaram. Ainda risonha; sempre sonhadora. Mas, de certa forma, mais convicta do que estava por vir. Como lagartas que deixaram de ser venenosas, para se transformarem em belas borboletas.

Não havia medo, não existia insegurança. Sorrisos a encantavam, mas não mais a convenciam.

Dentro de si, havia apenas a busca incessante pelo desconhecido e mágico. A plena insistência de dar de cara com seu verdadeiro ser.

Numa esquina qualquer, numa esquina da vida.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O tempo do coração

Passam dias, passam noites. Passam tardes, passam manhãs. O pensamento sempre é o mesmo. Acho que de vez em quando isso deveria mudar ou simplesmente desacelerar o ritmo. Mas quando uma granada é lançada, temos pouco tempo antes de ela explodir.
Segure o fôlego. Não é o fim do mundo, mas sim, o início dele. Se você pensa que vai esquecer está enganado. Isso prevalece. Dormente, mas continua ali. Esperando para ser vivenciado outra vez. Mas tudo tem o seu devido tempo.
O teu pensamento não é mais o mesmo. Agora existem outras sensações florescendo. Mas aquele sentimento ainda está ali, intacto.
Você cresceu, amadureceu, estudou e se formou. Você casou, teve filhos, ou talvez não. Você seguiu outros passos. Mas ainda sim aquele caminho que parece nunca ter saído de ti, volta a tona. Um dia você tem seu coração pulsando loucamente, novamente. E então você percebe que ainda não mudou. Você reencontra aquilo que talvez nem soubesse que tinha perdido. Você fugiu, mas a vida te reencontrou. Passaram dias e noites, tardes e manhãs, pra só agora você entender aquilo que te fazia sorrir sem motivo.